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Ecologias do Pensamento

Laboratório de Antropologia Multimídia. (UCL-MAL) + Escola de Botânica (SP) + Universidade de São Paulo + Universidade Federal de Santa Catarina + Slade School of Fine Arts

Apoiado pelo UCL Global Engagement Fund

Coordenação: 

 

Matheus Montanari

Raffaella Fryer-Moreira

Fabiana Assis Fernandes

Patrick White

O projeto ecologias do pensamento estabeleceu uma parceria internacional e multidisciplinar com as comunidades indígenas Guarani e Kaiowá para investigar o pensamento ecológico a partir da relação entre o som e as plantas. O projeto propôs diálogos entre diferentes tipos e concepções de tecnologia, desde cantos e cultivos tradicionais até o uso de microcontroladores e análise de dados.

Desenvolvemos duas estratégias experimentais. O primeiro focou na criação de mundos de realidade virtual que, por meio de processos de arte generativa, exploraram a cosmologia Guarani e Kaiowá em seu aspecto cosmotécnico. Usando sons e elementos tradicionais como o Chiru, o cajado sagrado que sustenta o mundo, e o milho branco, o alimento que sustenta a vida, buscamos investigar temas fundamentais da cosmologia por meio da experiência, e não da representação narrativa.
   

A arte generativa pode ser definida em diferentes graus de complexidade, está associada a um sistema que possui algum grau de autonomia, em que o artista e o sistema exercem uma série de operações que resultam na obra final. Buscando formas de se relacionar com as mitologias Guarani e Kaiowá, respeitando suas características, as metodologias de arte generativa pareciam não apenas se adequar às qualidades ontológicas da cosmologia, mas também privilegiar uma investigação e produção audiovisual que pudesse manter uma fidelidade cosmotécnica. Pois ambas, a cosmologia Guarani e Kaiowá e a arte generativa, são processos emergentes, não lineares, com elementos repetitivos que estão em constante transformação. 

A segunda estratégia foi o uso de microcontroladores para transformar plantas da cultura alimentar Guarani e Kaiowá em sensores táteis, para que ao serem acionados emitissem um som. Neste experimento utilizamos milho, batata e mandioca, com sons de instrumentos tradicionais, o mimby (apito), o taquapu (bambu) e o mbaraka (chocalho). Com isso, pudemos traçar linhas entre plantas e sons, aprofundar conversas sobre essas relações ecológicas extra-humanas e entender melhor como podemos nos envolver e apresentar esse tipo de conhecimento.

De forma mais ampla, este projeto busca superar a noção romântica e colonial de preservação, que não considera a presença indígena uma presença digital, capaz de agir e pensar sobre processos técnicos desde sua concepção. Isso significa, além de uma representação ilustrativa do que se acredita ser o patrimônio cultural material e imaterial da comunidade, construir colaborativamente um território digital indígena, um tekoha digital Guarani e Kaiowá onde se estabelece uma nova ontologia tecnológica, de forma que a própria concepção da tecnologia contemporânea seja afetada pela cosmotécnica indígena.

A colaboração, a interdisciplinaridade e a investigação dos processos criativos - mais do que a proposição de representações - permitem chegar a questões relacionadas ao nível da existência, para que, na era antropocênica da ausência de futuro, possamos compor uma cosmotécnica para uma realidade viável, virtual e atual, baseada em uma poética do cuidado e das relações mais que humanas.

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